O nascimento da comédia
Uma reação à catarse cômica nas redes em formas de piadas sobre um episódio recente da guerra civil nacional
(a edição presente no site tem um parágrafo a mais que a edição enviada aos e-mails)
Há alguns dias ocorreu o massacre do BOPE contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, e as reações nas redes sociais, em especial no Twitter, chamaram-me a atenção por alguns fatores. Quero, porém, falar apenas de um: a disputa sobre o que se pode ou não rir. Esta postagem, inclusive, nasceu nessa rede social, e a reescrevo agora para ampliar o que ali ficou hermético.
Sempre se deu enfoque ao olhar que Aristóteles lançou sobre o conceito de catarse na análise do teatro trágico, mas muitas vezes não se atentou tanto à sua função medicinal. Sim, o amigo deve ter se lembrado da regulação psíquica, do descarrego das emoções represadas do público, que ocorria à medida que a estrutura narrativa se encaminhava para a revelação final de um segredo — sobretudo se o amigo tiver interesse por psicologia. Escrevo esta nota pensando numa visão mais bruta da medicina das sociedades antigas e arcaicas, daquela medicina que se confundia com arte e com magia (ou religião, se o amigo católico se escandalizar, como eu), para falar não da tragédia, mas da comédia.
Mais uma vez, se o amigo tiver algum trato com a psicologia (em especial a junguiana) ou com a antropologia, reconhecerá essa união de funções que hoje são exercidas separadamente: o poeta, o curandeiro e o xamã. Sem querer estender-me demasiado numa explicação que demandaria espaço excessivo para os fins deste texto, remeto a um exemplo que li nesta semana mesmo em Jung.
Numa tribo, ou numa sociedade arcaica — até mesmo de complexidade imperial —, quando alguém ficava doente e ia ao pajé, ao sacerdote, ao xamã, este, além de lhe dar algum remédio natural, se necessário, contava uma história. Essa história poderia ser cantada, poderia até ser teatralizada, ritualizada. Mas a história tinha de estar ali. E não era qualquer historinha, mas algum mito importante no complexo cultural daquela sociedade. Entre esses povos não havia a noção de separação entre mente e corpo como há na civilização moderna (mesmo que várias tentativas de superar essa divisão tenham sido articuladas, desde a homeopatia até o resgate de religiosidades arcaicas). Uma doença do corpo era também uma doença da mente — e vice-versa. A história contada, cantada ou dançada era escolhida pelo seu simbolismo próprio, cujo sentido fosse análogo ao simbolismo da fórmula material ingerida (o remédio) e à doença, que era em si também um símbolo de energias desajustadas na pessoa.
O teatro grego derivava dos ritos a Baco, nos quais essa função medicinal se exercia. Na verdade, antropologicamente falando, todo rito religioso é medicinal nesse sentido mais amplo dos antigos — inclusive a Santa Missa, que é também um teatro: o Teatro do Sacramento, para usar a expressão de Antônio Vieira — e um evento mágico de transmutação da matéria, a transubstanciação da hóstia, cujo efeito curativo já foi acentuado por muitos teólogos e santos. Mas trata-se de uma cura da natureza humana, claro, embora aqui e ali apareçam propostas terapêuticas em que a frequentação dos sacramentos católicos tem o seu lugar.
O teatro grego surge autônomo em relação aos festivais báquicos, com o acento de evento civil e papel de regulação psíquica da polis, sob o ponto de vista político. Claro que os temas sagrados persistem nas histórias — Eurípides chegou a ser acusado de revelar os segredos das religiões de mistério em suas peças —, mas ali há uma autonomização da história em si, a ponto de influenciar formas narrativas como o diálogo platônico, de modo que sempre foi fácil ler os textos sobreviventes como ficções, num sentimento próximo ao de quem hoje vai a uma peça qualquer ou assiste a um filme.
Nietzsche, aliás, foi certeiro ao reconhecer, em O Nascimento da Tragédia, que grande parte do efeito catártico vinha da música que acompanhava os ritos. É bem possível que apenas o poder dos tambores e das melodias já gerasse esses efeitos na plateia: os instrumentos e os coros utilizavam simbolicamente a música no tom apropriado ao que se contava — o conteúdo apolíneo. Ao longo da história do Ocidente, pouco se deu atenção a esse papel musical ao se ler as peças e ao se estudar o tratado de Aristóteles. A descoberta de Nietzsche foi tão extraordinária que acabou ofuscando, em grande parte do pensamento do século XX, a dimensão formal da arte — sobretudo nas correntes que defendiam a música transgressora sob uma forma quase espiritual. Harold Bloom, em Presságios do Milênio, apontou bem esse fenômeno ao observar que o rock dos anos 1960 quase chegou a um ponto de explosão religiosa semelhante ao do Grande Avivamento norte-americano do século XIX — aquele que gerou todo tipo de seita milenarista, com impacto contínuo na cultura das três Américas. Esse mesmo espírito reaparece, por exemplo, na Renovação Carismática Católica, que busca trazer o elemento dionisíaco das músicas, das orações em línguas e dos transes, tentando resgatar os efeitos medicinais da Missa tradicional — vide a “Missa de Cura e Libertação” —, tudo embalado num estilo musical derivado do rock. Assim, jogaram-se fora quase todos os aspectos apolíneos formais na construção de personagens e cenas, bem como no cuidado com a linguagem, reduzindo grande parte da arte feita hoje ao que se costuma chamar de “dedo no cu e gritaria”.
Bem, e o que isso tem a ver com o humor negro que se espalhou pelas redes a respeito do embate entre policiais e traficantes? Volta e meia me pego pensando na parte perdida da Poética, a que trata da comédia, e no que Aristóteles diria a respeito do tipo de descarga psíquica que o riso provoca quando suscitado por narrativas — que, aposto, seriam vistas também como terapêuticas. Não sei se ele usaria o conceito de catarse, mas, no mínimo, um análogo a esse efeito. Assim como ainda sentimos algo próximo ao efeito catártico quando assistimos a filmes modernos ou lemos romances, podemos notar que o riso também gera um efeito psicossomático em nós. Lembro sempre de que, durante o tempo em que foi exibida a série cômica Sai de Baixo (gravada como uma peça de teatro, com público e tudo), a Globo foi informada de que os índices de suicídios dominicais diminuíram consideravelmente.
Inclusive, há pouco li em Jung sobre rituais antigos em que mulheres da alta classe contavam piadas obscenas, como ocorria nos mistérios eleusinos ou órficos. O humor acerca de realidades que não podiam ser tratadas socialmente devido à etiqueta — por serem reprimidas no convívio público — continuava a ser alimentado internamente; e o escape provocado nos rituais era, portanto, poderoso, regulador de fluxos emocionais que, se estagnados, poderiam gerar doenças individuais que, pelo número, acabariam por se desenvolver em crises sociais.
A nota inicial foi uma reação minha ao grande número de piadas nas redes sobre o já citado massacre. Pois bem: os povos sempre tiveram tabus acerca do riso, de modo a proteger aquilo que é sagrado no horizonte de consciência da comunidade. Tribos e impérios costumavam tratar de modo jocoso os inimigos nas representações que faziam deles (isso aparece até no Antigo Testamento — e me perdoem se não posso trazer agora um exemplo, mas há muito material cômico que temos dificuldade em reconhecer como tal por causa das traduções e da perda de certas referências da época). Esse é um antecedente antropológico do que hoje chamamos de xenofobia ou racismo (embora o racismo, como tal, só possa ser reconhecido como fruto da mentalidade biológica moderna, como demonstrou Voegelin em Hitler e os Alemães).
Um tweet específico me levou ao sentimento que me traz aqui: alguém reclamava de que aqueles que se incomodaram com as piadas sobre o assassinato recente de Charles Kirk estavam rindo do destino sangrento dos traficantes. Não vou falar da desproporção entre os dois casos, mas sim da falta de agregação valorativa numa mesma sociedade em que aquilo que é sagrado para um lado é demoníaco para o outro. Daí o riso hoje ser condenado não segundo a visão obtusa de Umberto Eco em O Nome da Rosa, em que um padre assassino esconde a tal metade perdida do livro de Aristóteles devido ao caráter subversivo do riso. O problema se dá quando o riso serve para aliviar a tensão de uma parte da tribo enquanto a outra está chorando sobre o mesmo tema: o que é comédia para um lado é tragédia para o outro — e isso ocorre porque antes foi destruída a unidade ritualística que unia os afetos de toda a sociedade num mesmo sistema de valores.


